• Ana Reis

Maternidade: Há sacrifício, mas há graça!


Há poucos dias, li um relato em site do notícias na internet (UOL) de uma mãe sobre sua realidade com a maternidade que me chamou bastante atenção. Ela, basicamente, se arrepende de ser mãe, mesmo tendo se esforçado muito, inclusive se preparando previamente antes da chegada da filha, de 10 anos. Ela também passou a manifestar isso de maneira pública a fim de ajudar outras mulheres que também se sentem assim.



Eu entendo essa mulher e não a critico de maneira alguma. Consigo compreender seu arrependimento, assim como o movimento em potencial de outras mulheres se identificando com a autora.


Em certa medida, estive nesse lugar tenebroso. Por um lado, infelizmente! Mas, por outro, felizmente, pois foi esse lugar de sofrimento devastador que me trouxe a oportunidade de conseguir me compadecer e compreender essa mãe - e, talvez, quem sabe, ser canal para trazer luz e esperança a situação.


Preciso concordar com ela que a maternidade ainda é romantizada de tal forma que a realidade pode acabar espantando qualquer ser humano! Eu mesma, antes de ter filhas, não fazia ideia de que amamentação pode ser algo dificílimo, assim como ensinar o bebê a dormir - afinal, eles nascem sem saber fazer praticamente coisa alguma! A maternidade sem apoio, especialmente desassociada da paternidade responsável (aquele pai presente e zeloso, que consegue perceber que a sanidade e o equilíbrio emocional da mãe são valiosos para o bem dos filhos), é um desafio avassalador! Somente com virtudes heroicas, aquelas que são próprias dos santos!!! Num cenário de violência e doença mental, como relatado por essa “mãe arrependida”, o sofrimento pode engolir qualquer um vivo.


Me intriga muito saber como essa mãe passou por tudo isso sem recorrer a graça. Me parece que tudo se tornou sufocante e pesadíssimo, sem saída, alegria ou felicidade.


Na história dessa mãe, eu creio que graças aconteceram, certamente. Mas até que ponto elas foram buscadas, experimentadas e vividas?! Até que ponto havia a compreensão e a expectativa - não romantizada - de que gerar vida custa muito, mas apenas porque vale muito?! Antes da chegada da filha, quais eram as expectativas forjadas pelas leituras e preparações dessa "mãe arrependida"?


Parece-me que deixamos de observar a totalidade da realidade, nos prendendo em discursos rasos apoiados em conceitos falsos. Realidade essa que tem sofrimentos, mas também tem graça. É isso que nos ensina a ética cristã e não um compilado de perfeição e posturas que supostamente se concretizam como "passes de mágica" levando as pessoas a um amor incondicional, como escreveu essa mãe.


Eu sou católica, vivo a ética cristã. E digo com propriedade que não há passe de mágica para amar. Mesmo sendo o amor para nossos filhos. Há decisão, há entrega, há sacrifício, há doação... Precisa-se romper com a expectativa de que amar seja algo espontâneo, comum ou corriqueiro, pois não se trata de um sentimento ou estado de ser. É ação. É decisão.


E tudo isso é acompanhado de bênçãos. Todo esforço é recompensado, mas não como um salário, num sentido pobremente utilitarista, e sim numa perspectiva que supera a realidade material. Falo do que é transcendente, do que vem do Alto, daquilo que não passa. É a benção. A graça!


Aqui retorno ao que me intriga: como uma mãe consegue ser mãe sem recorrer a graça? Ouso dizer que, ao não buscar a graça, o arrependimento de ter tido filhos deve ser inenarrável. Se assim ocorreu com a autora do relato, ela não deve ter transmitido nem um centavo do que realmente viveu!


Testemunho que a chegada da minha segunda filha, Mariana, de cinco meses, ressignificou a minha maternidade, especialmente porque sofri muitíssimo na gestação e início de vida da minha primeira filha, Victória, que acabou de completar dois anos. Passei por uma depressão pós parto, que foi tratada com profissionais qualificados, mas também pela graça! Assim como aquela “mãe arrependida” contou que cronometrava o tempo de amamentação, eu cronometrava e fazia gráficos diários sobre os períodos de sono da Victória. Após esse curto tempo da minha maternidade, ainda são diversos desafios, mas sei que toda entrega, sacrifício e doação só foram suportáveis e canais de coisas boas porque contei com a graça.


Há gozo em me doar para que haja vida. Há felicidade em sair de mim para ser mais para o outro. Há realização e alegria em fazer parte de algo que é muito maior do que eu mesma.


Talvez possa parecer uma proposta pouco atrativa ou insuficiente, especialmente diante de anseios tão fugazes, egoístas e autocentrados como os comumente encontrados nas sociedades modernas. (Não me leve a mal com esse comentário, pois ainda há em mim muito desses anseios!)


Ocorre que eu decidi enxergar a vida com olhos que buscam o que não passa, tentando viver muito mais ligada ao que sou, tirando o foco daquilo que faço. Eu decidi me lançar além do peso, da dor, da dificuldade, da contrariedade, das efêmeras vontades não atendidas e dos sofrimentos... Eu decidi me lançar na graça e na benção que a vida gera. Sobretudo, me lancei (me agarrei!!!!) nas coisas que não passam, no transcendente, pois somente assim chega-se a verdadeira paz, alegria e felicidade. Me abri a vida novamente (mesmo muito ferida e machucada) e essa nova vida foi canal de cura. É graça!!!

Sei que a necessidade do transcendente não é um cenário exclusivo à maternidade, mas se trata, certamente, da única via para a plenitude do se doar, que tanto é exigido da mãe.


Espero, confiando em Deus, que todas as mães recorram ao auxílio do Alto, pois é de lá que vem o sentido e o gozo aos esforços neste vale de lágrimas. Para minhas filhas e todos os filhos que Deus me confiar, desejo ensinar sobre a beleza de ser, muito antes do fazer, centrado nas graças e bênçãos dAquele que jamais passará.


Ana Reis

Consagrada da Comunidade Católica Novo Ardor,

Esposa de Fabio e mãe de Victória e Mariana.


Brasília, dia das mães | 09/05/2021.

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